Por trás da paisagem, há sempre muito, muito mais

domingo, 10 de março de 2013

A Natureza do Ser Humano - Nascida ou aprendida?


 “(…) a incredulidade. Assim se defendia o ser humano contra tudo aquilo que mostrava as indescritíveis crueldades a que podia chegar incitado pela ganância e pelos seus maus instintos num mundo sem lei.”
Mario Vargas Llosa, excerto d’O Sonho do Celta

Por vezes há estranhas conjugações de acontecimentos nas nossas vidas. Numa aula do curso de Acupuntura, discutíamos com o professor a possibilidade de os Seres Humanos nascerem intrinsecamente maus, ou bons.
Lembrando-me da minha recente leitura de O Sonho do Celta, de Vargas Llosa, obriguei-me a reflectir sobre esta interrogação. São brutais as atrocidades descritas neste romance que foram levadas a cabo por seres humanos no Congo e na Amazónia, e todas elas se repetiram e repetem em toda a história da humanidade. Há portanto, necessidade de compreender este fenómeno e de que forma se relaciona com a maldade e o respeito pelo próximo. Fiquei com a impressão, ao ler o livro de Llosa, que há um peso considerável no “sistema”, nos comportamentos preexistentes. Isto é evidente no discurso das próprias personagens, que assim justificam os seus actos, quando confrontadas com eles. No entanto, mesmo na barbaridade do colonialismo, há Seres Humanos que se mantêm imunes ao contágio do ambiente tóxico e perverso que os rodeia. Ora, esta disparidade do efeito do meio na personalidade do indivíduo faz-nos crer que não são o sistema ou o meio os principais responsáveis pelos nossos actos, embora teimemos em desresponsabilizar-nos com desculpa titubeantes como “sempre foi assim”.
Independentemente do indivíduo nascer “mau” ou fazer-se “mau”, a maldade é determinada pela falta de empatia pelo próximo e pelo desrespeito das mais elementares normas de conduta social (que se fundam no respeito pelo próximo). Correndo o risco de avançar com um julgamento simplista, poder-se-ia dizer que um Ser Humano maltrata outro por não ser capaz de se identificar com ele (esta justificação é transversal a toda a condição de escravatura de um Ser Humano – o escravo é visto como Ser Humano Inferior), por prazer, por aprendizagem (filhos de pais que perpetram violência doméstica tem uma probabilidade significativa de repetir o padrão comportamental do pai ou mãe), ou por vingança. Ora, onde se enquadra o livre arbítrio?
Continuando esta reflexão e antes de tentar responder a esta questão, não poderia deixar de ser abordado o papel da educação nos primeiros anos de vida de um indivíduo. Os três primeiros anos de vida são primordiais na definição das principais linhas da personalidade de um Ser Humano. A relação da criança com as figuras parentais e, mais tarde, com o grupo familiar alargado e os primeiros amigos influenciará indelevelmente o padrão de comportamento do adulto. Mas há uma ressalva que deve ser feita, este processo não tem um produto final, independentemente da importância destes primeiros anos de vida, o indivíduo está condenado a uma perpétua mudança de mentalidade e comportamento que definirão a sua identidade ao longo da vida.
Suponhamos que uma criança nasce “boa”, que no seu genoma carrega a herança do respeito e da empatia. Como será a sua evolução quando confrontada com um ambiente tóxico?
Dickens é eloquente na demonstração do seu raciocínio sobre cidades tóxicas que criam cidadãos perversos. Em Dombey and Son, o autor escreve que a contaminação moral associada à contaminação industrial (sentido não só literal, mas também associado aos valores da Revolução Industrial) pervertem a criança e criam “infância sem inocência, juventude sem modéstia, maturidade que é apenas madura na culpa e no sofrimento”. Com estas palavras, Dickens assume a atitude fatalista de que o meio influencia irremediavelmente a identidade do indivíduo. Ora, isto poderia levar-nos ao extremo de acreditar que filho de ladrão, ladrão será, sem excepções.
Pois eu ponho seriamente em dúvida este determinismo associado ao berço. É aqui que entra o livre arbítrio. Dotado de intuição e raciocínio, o Ser Humano toma decisões. Apesar do conjunto de valores que carrega consigo desde a infância, e também por causa dele, o Ser Humano poderá sempre analisar opções antes de tomar decisão e, mais tarde, reflectir sobre a consequência dos seus actos. O Ser Humano, teoricamente, pode tender para a melhoria constante, desde que assim o deseje, desde que decida fazer melhor a cada dia, respeitar o próximo a cada dia.
Porém, não é possível esquecer que o genocídio, a escravatura, a discriminação, o crime e outras perversões afins existem. Há Seres Humanos que as defendem e praticam. Porquê? Nasceram maus ou escolheram agir assim? Se é escolha, quando se começou a tomar decisões com estas consequências nefastas? E porquê?
Não querendo cometer a ousadia de responder a esta pergunta, parece-me óbvio que cada Ser Humano agirá de forma única perante circunstâncias semelhantes e que em situações limite, tais como a subsistência em condições infra-humanas determinarão o desenvolvimento de comportamentos geralmente tidos como “inadequados”.
Independentemente da resposta a estas perguntas, o Ser Humano criou o Mundo onde coexistem a virtude e a maldade nefasta, a fraternidade e o ódio, o que significa que “ambos os lados da força” fazem parte de cada um de nós, ou pelo menos da humanidade como um todo. Além disto, o mundo social e moral de que tão criticamente se fala não deixa de ser uma criação humana. É criado por nós, transformado por nós e, por isso, assemelha-se a nós.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Fé e Ateísmo – Conceitos compatíveis?


“Enquanto existir, por efeitos das leis e dos costumes, uma condenação social, que produza infernos artificiais no seio da civilização, e desvirtue com uma fatalidade humana o destino, que é inteiramente divinal (…), enquanto houver na terra ignorância e miséria, não serão os livros como este, de certo, inúteis.”
Victor Hugo, excerto da nota introdutória d’Os Miseráveis

    Será o ateísmo uma religião? Pergunto-me tal coisa porque comparo a forma de pensar de um absolutamente céptico ateu com a de um ferveroso crente de uma religião. Pensando no que o ateísmo representa, a negação veemente e proactiva da inexistência de fundamentos para a religião e de qualquer poder que ultrapasse, nas palavras de Shakespeare, aquilo que é sonhado pela filosofia humana; e naquilo que a religião representa, a crença conjunta, normalmente veemente, e proactiva na existência de um poder superior, sublimado; tornam-se claras as afinidades entre estes dois conceitos.
     São conceitos diferentes, é certo, mas com objectivos e normas de conduta semelhantes: Veja-se:  ambas têm uma crença (na divindade ou na sua inexistência) e ambas esforçam-se por fazê-la chegar aos outros pelo uso da palavra. Por certo, ambas as posições têm comprovados benefícios para as pessoas que as defendem, mas também têm a prepotência de acreditarem que o correcto a fazer é convencer os outros da correcção da sua própria escolha de vida e de pensamento.
     No entanto, o ateísmo desperta em mim um sentimento de revolta que não existe quando analiso outras religiões. Quando penso na retórica inflamada de um ateu perante um crente seguro das suas próprias ideias, lembro-me de uma cena marcante do filme Green Mile.
      Nesta cena, a personagem interpretada por Tom Hanks, guarda prisional, assegura a um condenado à morte (papel desempenhado por Eduard Delacroix), a poucas horas da sua execução, que o rato que tão carinhosamente cuidou durante o seu encarceramento irá para a Ratolândia, viverá feliz, conhecerá outros ratos, com quem viverá por muitos anos. Enquanto o guarda prisional descreve este idílio, o condenado – um homem cujos crimes, naquele momento,  já não importam – chora. Despede-se do rato como se este fosse (e provavelmente era-o) o seu único ente querido na terra.
    Mais tarde nesse dia, já sentado na cadeira eléctrica, um outro guarda prisional sem escrúpulos, interpretado por David Morse, diz-lhe, nos escassos momentos antes da execução!, que a Ratolândia não existe e que aquele rato é tão insignificante, pequeno e sem importância, como qualquer outro rato de esgoto. O prisioneiro chora novamente e, com estoicismo, recebe o massacre que se segue (quem viu a cena sabe do que falo).
    Quando o guarda prisional interpretado por Tom Hanks faz este condenado acreditar que existe realmente uma Ratolândia e que nela aquele rato terá um final feliz, restitui-lhe a réstia de fé, a réstia de esperança que um Homem pode ter nos momentos anteriores a uma morte com hora marcada. Quando a desesperança é tudo aquilo que se pode esperar, a fé é uma luz bruxuleante no final do túnel; uma crença inabalável, inverosímil e arrebatadora de que, no final, tudo ficará bem.
       Mas, no momento em que o outro guarda prisional, num cruel e desnecessário acto de despeito lhe nega esta última luz, aquele condenado descobre e vive o derradeiro medo do Ser Humano consciente: o não sermos nada, tal como nada é o que nos rodeia, e que ao nada voltaremos. Com palavras vazias de bondade e de respeito pelo sofrimento alheio, este guarda prisional abala, para este condenado, os seus alicerces da fé num mundo melhor.
        É isto que acredito que, num consideravelmente reduzido grau de crueldade!, um ateu faz quando tenta fazer ver ao crente que a sua forma de vida é errada e que aquilo em que sempre acreditou não existe. Dizer a um crente de uma religião monoteísta, por exemplo, que não existe Deus e fazê-lo crer nisso, é retirar-lhe as pedras basilares da sua moral, da sua conduta; é dizer-lhe que não haverá final feliz e isso, parece-me, é triste. É revelador de um auto-conceito, por parte do ateu, demasiado inflamado que o leva a CRER que está certo porque não existem provas em contrário (um argumento tão frágil, como simplesmente acreditar que existe Deus). É triste porque combate o direito de todo o Ser Humano de se iludir a si mesmo.
     Não defendo que a ilusão seja uma forma correcta ou saudável de viver a vida, no entanto, não existe nenhuma receita universal sobre como vivê-la e, por isso, cada um tem o direito de viver a vida ou sonhá-la como bem entender.
     Também não quero aqui defender que todos deveríamos ser crentes, se o pensasse, contrariaria o que acabo de escrever. Defendo sim o direito à fé, o direito de acreditar num mundo melhor, num “eu” melhor! Isto obriga-me a questionar o que é realmente a fé. Não será um sentimento de certeza absoluta, isento de um raciocínio lógico que infalivelmente o comprove? A fé, por definição e enquanto fenómeno vivenciado, não pode ser decomposta pela dúvida metódica.
      Se a fé não é científica, poderá um ateu ter fé? Acredito que a resposta se inclina perigosamente para o não. Nas palavras de Kant, a fé é “o modo moral de pensar da razão quando adere àquilo que é inacessível ao conhecimento teórico”. É, por isso, a crença naquilo que ainda não foi provado e, para todos os efeitos, uma necessidade de muitos Seres Humanos. O ateu, com a sua esmagadora necessidade de compreender e decompor todos fenómenos em seu redor, carece da sensibilidade necessária para simplesmente acreditar.
     É isto que me incomoda no ateísmo. É esta negação (ou chacota) de um direito individual. É este atentado perpetrado contra a sanidade mental das pessoas crentes, com quem os ferverosos ateus digladiam a sua retórica cheia de certezas verdadeiras apenas por hoje, tal como a história no-lo tem mostrado.
      É por isto também que escolhi o excerto da nota introdutória d’Os Miseráveis para cabeçalho. A fé, quer seja uma manifestação da sensibilidade do Ser Humano em apreender aquilo que não é palpável ou comprovável pela razão actual, quer seja uma necessidade latente associada à religião (e por isso, estigmatizada) ela é um direito! E, como direito, deveria estar a salvo da dissecação crua e cruel pelo raciocínio lógico.

Luiza Benatti

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Viver e deixar viver - Uma opção ou uma obrigação?


“Visto que não tenho contrato a prazo com a minha vida, afrouxo o freio quando chego numa descida mais perigosa. A vida do homem é uma estrada com subidas e descidas. Todas as pessoas sensatas avançam com um freio. Mas eu – é aqui que está o meu valor, patrão -, faz um bocado de tempo que eu joguei fora o meu freio, porque as carambolices não me metem medo
Excerto de Zorba o Grego de Nikos Kazantzakis

Há muito tempo que não escrevia neste espaço. Alegando a falta de tempo, o eufemismo para a falta de inspiração, deixei que o tempo corresse sem que me sentasse a reflectir[1] por escrito. Mas já chega, sinto falta de o fazer e hoje é um dia tão bom como qualquer outro.

O livro que hoje aqui me trás é Zorba, o Grego de Nikos Kazantzakis Falando da moralidade em estado puro, Zorba personifica o Homem angustiado com a vida, mas demasiado ocupado a vivê-la para se deixar abater por medos ou dúvidas.

Há uma passagem que ilustra bem esta ideia: “Porque se ri, amigo? Mas como explicar-lhes? Eu rio bruscamente, no momento em que estendo a mão para ver se o fio de ferro é bom, penso em o que é o homem, porque veio à terra a para que serve… Para nada, acho eu. Tudo é a mesma coisa: se tenho ou não uma mulher, se sou honesto ou desonesto, se sou paxá ou carregador. Há somente uma diferença: se estou vivo ou estou morto.”

Pareceram-me estranhas estas palavras, diferentes da minha escala de tonalidades em que, por preconceito, classifico o bom e o mau. Zorba é (é-o, no presente, porque o relato da sua história, do seu pensamento, tornou-o num ícone da sociedade grega e da humanidade) um homem que sofreu, que foi feliz mas que, de alguma forma, conseguiu retirar importância de todas as experiências que viveu. Reconhece-lhes o papel formador da sua personalidade, da sua história de vida, no entanto, ao contrário de Epícuro e seus discípulos, Zorba não abdica do prazer e do sofrimento como experiências fundamentais da humanidade. Não pensado a morte com a luz de um sentimento saudosista, de perda absoluta, Zorba sabe que estar vivo é uma oportunidade e vive a vida como o momento o exige e como a sua consciência ordena.

É esta forma de ver a vida que impede Zorba de se arrepender. Os remorsos existem, pois em vários momentos da narrativa sente-se triste pelo que fez, no entanto os acontecimentos que representam um peso na sua história de vida são inseridos em determinados estados de espírito e assim justificados por ele, sem que percam importância na construção do seu carácter, mas também, sem que representem um peso demolidor, incapacitante da continuidade da sua vida.

Exactamente porque a vida é uma oportunidade, a morte representa o seu fim e é tão natural como qualquer outro fenómeno neste planeta. Nascimento e morte são apenas dois pontos, nem mais nem menos do que isso. São importantes? Talvez!, mas apenas para nós próprios e para aqueles que amamos. No entanto, esta tomada de consciência da vulgaridade da morte não é, em momento algum, um salvo-conduto para a indiferença para com o outro ou para a maldade contra si próprio ou contra outrem. O próprio Zorba vive de acordo com a sua consciência, de acordo com o seu conjunto de valores que, acima de tudo, decretam que não deverá prejudicar os outros.

Numa outra interpretação do velho adágio de que a nossa liberdade termina onde começa a dos outros, Zorba é proactivo na protecção dos “temporariamente menos afortunados”. Não conseguindo ser feliz sozinha, a personagem esforça-se por alegrar os outros, muitas vezes com prejuízo da sua própria liberdade, haja visto o inesperado casamento com a sua Bubulina. Zorba é um indivíduo, reconhece que não depende dos outros para se manter vivo, mas não consegue ser completo sem o Patrão – alter ego do autor – ou convivendo com a infelicidade alheia.

Zorba é simples, é primitivo (no bom sentido, aquele que caracteriza quem é alheio à razão e à sua habitual companheira, a angústia depressiva), é o Ser Humano em estado puro. Perto do animal, sem segundas intenções, puro e sábio. Zorba não nega que por vezes é maldoso, que erra, que já agiu em proveito próprio em detrimento do dos outros, mas aceita que a pessoa que é agora, é a pessoa que aprendeu com os seus erros, é a pessoa que se sente melhor do que o seu Eu anterior, mas nunca melhor do que qualquer outro Ser Humano.

Insisto ainda no primitivo, porque tento justificar-me. Este é o adjectivo que caracteriza o indivíduo que não cede às convenções sociais e à lógica aprendida. Pensa por si e expressa o que pensa sem medo de críticas. Respeitando a liberdade dos outros, é absolutamente fiel ao seu livre arbítrio. Zorba é o seu expoente máximo.

A dança é, assim, a expressão deste pensamento. Se está triste, Zorba dança. Se está feliz, Zorba dança. Se não se consegue expressar por palavras, Zorba dança. Pela expressão não-verbal, pelo movimento do corpo como um todo, Zorba comunica. Sem subterfúgios, sem correntes, sem ressentimento, Zorba utiliza o tipo de comunicação mais primitivo (novamente este adjectivo tão complexo): o não-verbal. É esta a verdadeira comunicação, só pode sê-lo. Haverá qualquer língua que seja compreendida por todos os seres humanos, como o é a comunicação não-verbal? Não me refiro apenas à língua gestual (até certo ponto, muito intuitiva, mas nem sempre de fácil compreensão e expressão), mas ao movimento rítmico, ao movimento inspirado e poético. Falo da utilização das expressões faciais, dos pés, das mãos, do toque, de tudo aquilo de que somos dotados, antes mesmo de aprendermos a primeira palavra. O Homem assim expressa-se pelo que é, e compreende utilizando todos os seus sentidos.




[1] Reconheço a existência do acordo ortográfico, mas concedo-me a utilizá-lo quando também for ractificado pelos outros países lusófonos.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Individualmente insatisfeitos ou colectivamente felizes?

“Agrada-me também a seguinte definição: o homem feliz é aquele para quem nada é bom ou mau à margem de uma alma boa ou má; esse homem pratica aquilo que é honesto e contenta-se com a virtude”
Séneca, Da vida Feliz

      O mundo está decididamente diferente. Não o digo fazendo comparações dentro dos meus 20 anos de vida, digo-o porque acredito que no espaço de dois séculos a humanidade mudou muito.
     Em tempos, conversando com colegas de trabalho, surgiu o velho adágio “se todos gostassemos do amarelo, o que seria do vermelho?”, pois poucas frases definem tão bem a sociedade individualista e de consumo em que vivemos. Quer tomemos como exemplo a organização do orçamento familiar ou a própria estrutura de uma família, sempre podemos encontrar em cada sujeito uma força individual dissonante do grupo com quem vive; sempre podemos encontrar alguém que acredita ter todo o direito de seguir o amarelo – leia-se o seu próprio conjunto de valores e gostos – ainda que dissonantes dos do resto do seu grupo de pertença.
    Alberoni e Veca (2000) ajudam-me a clarificar este ponto. Em O Altruísmo e a Moral, os autores defendem que existe uma proliferação de crenças individuais, não existindo um padrão de crenças ou, de uma forma metafórica, um pilar moral. Na verdade, na sociedade ocidental – e refiro-me a ela porque é a minha e talvez a que eu compreenda melhor – cada um tem a sua própria moral apesar de viver colectivamente. Cada Ser Humano define por si próprio o certo e o errado, apesar da convivência em sociedade implicar um acordo comum nas regras de conduta.
    Sintomático desta falta de princípios globais – princípios e não leis! – é o crescente desrespeito que as gerações mais novas têm pelas mais velhas. Se pensarmos que o livre arbítrio degenerou na escolha arbitrária do eixo de valores de cada um, poderemos observar uma tendência das gerações mais novas de acreditarem que só as suas crenças são actuais e válidas. Mas retomarei este assunto mais adiante.
Uma paleta de princípios morais tão variada como esta obriga a uma atitude de tolerância generalizada, sendo que ser excessivamente tolerante significa aceitar que tudo pode estar certo. Se assim for, existirão atitudes erradas? Se sim, quem, ou o que, as define? São as crenças comuns que impõem limites a TODOS os membros de uma sociedade. Se elas não existirem, quais são os pontos de referência de cada elemento de uma sociedade? Em última análise, como se define a identidade de cada elemento se não existe um conjunto de crenças que delimite e descreva as características de um grupo? Por conseguinte, numa sociedade progressivamente anónima – por que cada um tem um conjunto de valores que mais ninguém reconhece – quais são os referenciais de pertença?
    Se está cada Ser Humano por si e pelo seu bem-estar, onde estão os grandes objectivos da humanidade? Quem olhará além do seu umbigo para lhes dedicar a atenção devida? Atenção esta ditada pela solidariedade e altruísmo que a condição humana exige.
     Por vezes penso que um formigueiro será mais eficiente enquanto sociedade que toda a sociedade humana ocidental. Não lutam as formigas de um mesmo formigueiro pela sobrevivência de todo o grupo? Não são elas exemplo da dedicação absoluta, do auto-sacrifício e da abnegação de que nós nos proclamamos únicos bastiões?
    A organização das nossas famílias mostra-nos isto. Tendencialmente nucleares, as novas gerações tendem a tomar como certa a saída de casa dos pais, um desejo compreensível dentro de uma perspectiva demasiado tolerante. Afinal, na casa dos pais fica um casal a envelhecer e que, a certa altura, irá precisar de cuidados que os filhos estarão demasiado ocupados ou distantes para prestarem. A solução passa, infeliz e maioritariamente, pela antecâmara da morte – apodo que alguns idosos dão aos lares que, na verdade, não passam de salas de espera colectivas pela próxima morte. Deixou de existir o patriarca ou a matrona, já não se pedem conselhos aos mais velhos. Parece que a sabedoria, agora, tem prazo de validade.
    Abrangendo ainda mais esta observação, já não se contratam para as empresas pessoas com mais de 50 anos – são velhas – e a experiência perde-se, preterida a um estilo de organização que só tem em consideração o lucro e o rendimento de um conjunto de trabalhadores – mais uma vez uma massa anónima de seres humanos.
    Pensando bem, talvez seja este o paradoxo da nossa sociedade: cada Ser Humano tem uma forma de pensar própria e acha-se especial por isso, no entanto, para a sociedade que o criou e que ele próprio mantém, ele não é mais do que uma peça numa engrenagem gigante. Pior, a engrenagem que ele se esforça por acompanhar não lhe atribui maior importância do que à sua capacidade de trabalho e é, ela própria, destituída de sentido. Na verdade, criámos uma sociedade cada vez menos sustentável e que, analisando com cuidado, não serve para coisa alguma. Qual é o objectivo das grandes empresas e empreendimentos que não o lucro? E para que serve o lucro senão para satisfazer as necessidades e o bem-estar de uns poucos infelizes? O que ganha o trabalhador senão o seu ordenado para gastar a pagar dívidas e a manter-se vivo para continuar a trabalhar para continuar a pagar as contas? Onde está o sentido da vida de cada Ser Humano? Qual é o papel de CADA Ser Humano?
     Acredito que numa verdadeira sociedade todos os papéis estão definidos e cada Ser Humano é realmente especial porque a sua acção na comunidade é importante e ele não deverá querer desenvolver outro papel que não o seu! Só assim, creio, cada um sabe exactamente quem é, não só porque sabe o que é esperado dele, mas também porque é reconhecido por isso! Tal não acontece na nossa sociedade, porque não existem papéis verdadeiramente definidos, existem demasiadas áreas cinzentas que dificultam, ou até mesmo impossibilitam, a definião da identidade de cada um. Se eu não souber quem sou, como posso saber o que esperam de mim? Como defino os limites da minha acção? Como sei o que está certa ou errada?
     Por tudo isto, parece-me que o mais importante nunca poderá ser o bem individual, mas sim o bem maior para todos, porque se todos nos importarmos com todos, não existirá negligência, não existirá abandono, não existirá indiferença. Se o problema do outro for o meu problema, a minha vida terá um significado maior do que a sobrevivência aos outros. Afinal e, regressando ao adágio inicial e utilizando-o como metáfora, se todos gostarmos do amarelo, seremos mais fortes. Partilharemos princípios, crenças e objectivos, mas se cada um tiver uma cor preferida, uma crença e um objectivo próprio, estaremos a remar contra a maré sozinhos até ficarmos sem forças para continuar. Talvez o problema da nossa sociedade seja o seu tamanho descomunal, mas cada um de nós pode fazer a diferença e esforçar-se pelo outro, para compreendê-lo, para ajudá-lo, ainda que isso comprometa o nosso bem-estar. Só assim, acredito, valerá a pena viver!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

AS ESCOLHAS – RACIONALIDADE OU ILUSÃO?

“No fundo da alma, contudo, ela esperava um acontecimento. Como os marinheiros em perigo, lançava olhos desesperados sobre a solisão da sua vida, procurando ao longe qualquer vela branca nas brumas do horizonte”

Gustave Flaubert, excerto de Madame Bovary

Estou agora a ler Madame Bovary de Flaubert. Ainda no começo, o livro já mostra pontos de bastante interesse para discussão e aquele que aqui gostaria de comentar é o período inicial do casamento dos Bovary. Além do homem iludido com a própria vida e que desconhece em absoluto a esposa que escolheu, temos a esposa: sonhadora e que vive com a mente envolvida em sonhos e com uma assombrosa capacidade para construir ilusões sem qualquer fundamento experiencial. Ela cria vidas perigosamente hipotéticas que a fazem, num limite da sanidade, sentir-se infeliz com a própria vida e a esperar, sentada – claro - que um impulso - do nada - traga a mudança para a sua vida.

É a mente desta esposa que gostaria de trazer a esta discussão – monólogo, para ser mais exacta. Fala-se aqui do sonho em si, associado às frustrações e às metas que definimos para a nossa vida e da espera indolente de que o que quer que queiramos nos venha para às mãos sem qualquer esforço.

Quanto à construção de sonhos, quero lembrar que temos tendência, enquanto indivíduos da sociedade ocidental – vetada ao progresso -, de reger a nossa vida de acordo com objectivos. Pautamos todas as nossas decisões pelos projectos a que aderimos ou que desenvolvemos. Inconscientemente acreditamos na ideia de que apenas quando produzimos e apresentamos resultados somos úteis. Chegamos, inclusivamente, a considerar quem não produz, um preguiçoso, um parasita.

Pois bem, está clara uma tendência da humanidade ocidental – em assustador processo de globalização – de se tornar escrava dos seus próprios projectos, a uma constatação dolorosa e inevitável de que “AINDA não sou feliz”. Parece-me, então, que estão assim lançadas as bases para a frustração, quer tenhamos projectos pragamáticos – trabalhar, ter filhos, casar, etc. – quer vivamos de ilusões.

Analisemos os projectos pragmáticos, uma cadeia perpétua de objectivos a atingir, um atrás do outro, sendo que atingir um não implica a tão ansiada felicidade, mas sim o começo de uma nova pulsão para atingir o objectivo seguinte, até que a morte nos detenha. Estamos sempre a ansiar, a querer mais e, no meio desta escalada, esquecemo-nos do que é realmente importante: a viagem, porque, no final de contas, é essa a nossa vida. Não vivemos apenas quando atingimos os objectivos – esses são pontos altos – vivemos todos os segundos das nossas vidas.

Não quero aqui negar a importância de um projecto de vida próprio, desenvolvido por cada um de nós. O que aqui defendo é a manutenção de uma perspectiva global de si durante o desenvolvimento deste projecto, pois ao depositarmos toda a nossa expectativa no cumprimento de uma meta, perdemos a consciência do que realmente somos. Se segmentarmos a nossa vida nos objectivos que atingimos, perdemos a noção do todo e, pelo caminho, perdemos a nossa própria identidade. Afinal, quem somos não se define pelos objectivos que atingimos, mas sim pela forma e pelo empenho que empregámos. Se os fins não justificam os meios, serão então, os meios a parte principal de um projecto e, por conseguinte, veiculantes do cunho pessoal que cada um dá à sua vida. O que é importante não é sabermos o que fizémos, mas sim como e porque o fizémos.

Isto trás-me de volta ao tema original, a mente de Ema Bovary, a esposa, e ao conceito de ilusão. Considerando tudo o que aqui foi escrito, compreende-se a relação entre a construção consciente de um projecto de vida e um auto-conceito realista. Quer isto dizer que devemos considerar as nossas capacidades, os nossos limites e nosso contexto na construção destes projectos. É esta a diferença entre um projecto realista e uma ilusão. Sendo que, nesta lógica, uma pessoa iludida com os objectivos que pode atingir, é uma pessoa alienada, que desconhece o mundo em que vive e, pior, desconhece-se a si mesma. Erasmo[1] já o escreveu, a felicidade consiste em querer ser o que se é. Ou seja, é feliz aquele cuja vida é o que sempre pretendeu, aquele que é realista nas suas pretensões.

Em momento algum coloco em dúvida o facto de ser a insatisfação perpetuamente renovada o motor do progresso humano. O que me pergunto, é se será realmente este o caminho para a realização humana. Se a nossa vida é uma escada de objectivos – muitas vezes ditados pela sociedade em que vivemos – não seremos mais do que peças que trabalham para um objectivo comum que nenhum de nós sabe realmente identificar?



[1] Elogio da Loucura

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

GREVE - Inconformistas ou conformistas mascarados?

É inadmissível a greve que se realizou hoje. Não nego o direito da população à greve e à liberdade de expressão - sejamos livres para apontar o que nos incomoda, mas não sejamos livres para prejudicar a vida do próximo, sem que disso venha um benefício significativo.
Na greve de hoje pararam as prinicpais empresas públicas, ou seja, pararam as pessoas cuja adesão à greve implica apenas não ganharem o dia de trabalho. O que estas pessoas se esquecem é que aquelas pessoas que lhes pagam os salários - os funcionários das empresas privadas - não têm condições sociais, finaceiras e/ou, inclusivamente, laborais para aderirem à greve.
Foram estas pessoas as principais prejudicadas, foram estas pessoas que chegaram tarde ao local de trabalho - porque tiveram mesmo de chegar! - porque os sindicatos decidiram protestar contra uma decisão que é agora inevitável.
estejamos cientes dos motivos que conduziram a esta greve: a população revolta-se contra os cortes que o governo e a Assembleia da Répública planearam para os subsídios, salários da função pública, a diminuição da comparticipação na medicação - já implementada - a dotação insuficiente de muitos serviços públicos, o congelamento da progressão dos salários... Bem, pelo menos são estes os motivos alegados pelo Sindicato dos Enfermeiros.
Agora vejamos, além de todos nós sabermos de cor o que aqui foi escrito e de, arduamente, digladiarmos os nossos ferozes argumentos nas conversas de café, também sabemos - quem disser o contrário alienou-se da realidade - que as decisões tomadas foram impostas, perdão, propostas, pela UE! Qualquer partido no governo e qualquer pessoa na presidência seria obrigado a proceder de maneira semelhante.
Esquecemo-nos que a nossa situação actual é o resultado de décadas de governação incoerente e "talvez" irresponsável. Mas também, não adianta casar a culpa com a UE, "talvez" a nossa entrada para a então CEE tenha sido apenas um respirar de alívio antes da inevitável catástrofe. Sejamos francos, antes da entrada de Portugal para a CEE, os gestores eram - e são - absolutamente incapazes de gerir de forma sustentável erário público. A situação pouco mudou, as gerações anteriores cometeram erros, foram incipentes e as gerações actuais não tomaram medidas que revertessem o quadro, dormindo à sombra da bananeira - leia-se fundos europeus.
Ora, porque estaremos nós a protestar? Não sei! Realmente não sei. Aliás, não sei se estaremos a protestar ou a encobrir sob a máscara da revolta a nossa vontade de gozarmos um dia de férias, "sendo muito proactivos no interesse da cidadânia", causando prejuízos ao estado (NÓS!!!) no valor de milhões de euros.
Mas sejamos ingénuos, creiamos que temos realmente motivos para protestar. O que fazemos?! Ordeiramente faltamos ao trabalho, em alguns casos, nem asseguramos serviços mínimos, e fazemos pacíficos piquetes de greve. Perdoem-me a linguagem, mas que raio de impacto é que isto tem? Aquilo que eu disse! Atrapalhar a vida do probre coitado que não pode faltar ao trabalho - perdão, fazer greve.
Olhemos para os exemplos da França, Grécia e Irlanda, a população revoltou-se... a sério. Partiu tudo!, Ameaçou a segurança pública. Ainda que de leve, fez o governo penas duas vezes antes de tomar qualquer decisão.
O que conseguimos nós? Perdas de milhões de euros que não me parecem que sejam motivo de insónia para o nossos decisores políticos e financeiros.
Coloquemos as mãos nas nossas consciências, valeu a pena esta greve inútil? Não estaremos a tentar esconder o facto de seros borregos alienados que só se lembram de ser cidadãos no verdadeiro sentido da palavra - aquele que implica direitos e deveres - quando nos pisam os calos? Onde estão os deveres? Terão ficado no sofá ao lado do PC, da Play Station e da TV que nos fazem "tão felizes"?... ACORDEMOS

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A utopia de Thomas More - Uma perspectiva de enfermagem

"a humanidade (...) consiste essencialmente em atenuar os males dos outros, aliviar seus sofrimentos e, com isso, dar mais alegria às suas vidas, ou seja, mais prazer"
Thomas Morus, excerto d'A Utopia

Há pouco tempo terminei a leitura deste livro e acredito que foi uma das minhas leituras mais interessantes nos últimos tempos. Thomas More descreve uma civilização bem diferente da sua contemporânea (a Inglaterra de Henrique VIII) e, mesmo assim, ainda bem diferente da nossa (o século XXI no mundo ocidental). Mas, ainda antes desta descrição, Rafael Hitlodeu, alter ego de Thomas Morus, procura identificar os problemas sociais e políticos (se é que se podem separar...) da Inglaterra do Século XVI, propondo-lhe algumas soluções. Por exemplo, este viajante critica as atitudes do estado em relação às punições por roubo ou assassínio que, à data do manuscrito, estavam em pé de igualdade - enforcamento para todo aquele que cometa um crime, quer seja por roubo, traição ou assassínio. Da mesma forma, Hitlodeu desaprova a lentidão da justiça que, sustentada em milhares de leis que muito poucos compreendem, perde tempo em julgar todos os casos e deliberar justamente sobre a inocência e culpa de todos os réus (quem de nós não se identifica com este facto? Quem de nós nega a lentidão da justiça portuguesa?). Contra esta situação, o viajante propõe a constituição da Utopia, composta por muito poucas leis que todos os cidadãos conhecem e compreendem. Esta alteração drástica na legislação inutilizaria, por exepmplo, a existência de advogados: se cada cidadão souber os pilares em que pode basear a sua defesa, não necessita de recorrer a um "entendido em leis" e pode, sozinho construir a sua defesa.
Continuando na obra, Hitlodeu defende um dos maiores princípios do socialismo e talvez, também, o segredo da vida em comunidade: a divisão equalitária de todos os bens pelos elementos da sociedade. Este raciocínio invalida a vassalagem de alguns justificada pela riqueza de outros, elimina a existência de classes sociais e, com elas, a inveja da posse (convenhamos, todas as guerras começam porque um tem uma coisa que o outro não tem... quer seja terra, petróleo, dinheiro, etc...).
Além disso, Hitlodeu descreve uma associação bastante interessante entre prazer, saúde e prevenção. A obra reza algures que "um sábio preferirá prevenir a doença a solicitar remédios; manter as dores afastadas a recorrer a calmantes; abster-se enfim de prazeres cujos malefícios teria de reparar". Apesar desta concepção ir de encontro com a Grande Saúde de Sfez, esta não procura garantir que estamos todos condenados a morrer saudáveis. Longe disso, procura antes estimular o cuidado de si próprio e a construção de um auto-conceito realista. Vejamos por outra perspectiva, às pessoas de quem gosto, a última coisa que desejaria seria magoá-las, ora, o mesmo se passa comigo, se eu gostar de mim, me tiver numa alta consideração, porque me magoaria? Porque desenvolveria actividades que eu sei que me prejudicam? Com isto não quero afirmar que devemos todos deixar de fumar (numa altura em que a dependência já está instalada, o objectivo não pode ser, à partida, deixar de fumar, mas sim, manter o prazer e o alívio que esta actividade proporciona sob pena de agravamento de outros problemas como por exemplo a ansiedade...) a intervenção tem que ser mais precoce e incidir sobre a própria estrutura da personalidade: as pessoas têm que aprender desde pequenas o que é o amor próprio, a importância de se estimarem. Acredito que o desenvolvimento desta atitude seria preventivo de muitos dos actuais problemas de saúde da sociedade ocidental e que têm a causa principal nos hábitos de vida das pessoas. Esta é uma das intervenções importantes do enfermeiro que trabalha com as crianças e com os educadores das crianças ao nível dos cuidados de saúde primários.
O raciocínio de Hitlodeu estende-se evoluindo do cuidado de si próprio para o cuidados dos outros, elogiando a atenção que o Homem deve prestar ao Homem. De certa forma, tal como More defendeu e tal como está descrito nas principais obras do socialismo, nós temos uma responsabilidade e um dever em relação aos outros, em relação àquelas pessoas que fazem de nós aquilo que somos pelo simples reconhecimento da nossa presença e dignidade. É porque nos importamos com o outro que cuidamos dele, que somos solidários, que recebemos ajuda dos outros. Analisando esta forma de conduta, encontramos os valores fundadores da profissão de enfermagem que se encarrega de cuidar do outro, de o ajudar a construir um sentido para as provações que tem de ultrapassar e, de certa forma, este é também o grande valor da humanidade, tal como conclui More.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

"De quem é a vida afinal?" - Uma perspectiva de enfermagem

"Whose Life is it, anyway?" (De quem é a vida afinal?), de John Badham, 1982

“Ora, uma correcta reflexão sobre esta questão é capaz de relacionar toda a escolha e toda a rejeição com a saúde do corpo e a serenidade da alma, já que é esse o fim da vida bem-aventurada”

Epícuro, excerto da Carta da Felicidade

A análise do filme "De quem é a vida afinal?" trouxe-me sérias inquietações, não necessariamente relacionadas com a eutanásia, mas sim com a condição de tetraplegia da personagem de Richard Dreyfuss. O meu primeiro ensino clínico do Curso de Licenciatura em Enfermagem (CLE) foi numa unidade de neurocirurgia em que muitos dos utentes internados apresentavam tetraplégia causada, principalmente, por acidentes. Foi por isto que este filme me deixou inquieta. No início do curso, a situação de tetraplégia parecia-me o fundo de um abismo, a pior das catástrofes. A pessoa com tetraplégia, manietada pela sua condição física, estaria, para mim, impossibilitada de investir no seu desenvolvimento pessoal, de seguir as suas aspirações. Desde então, não mais me vi confrontada com pessoas nesta situação.

“De quem é a vida afinal” confrontou-me com estes preconceitos adormecidos desde o meu primeiro ano. Embora o personagem manifestasse um desejo de morte e acreditasse no fim da sua vida como única solução possível, os médicos demonstraram uma atitude de obstinação terapêutica. Atitude compreensível, esta a dos médicos, que tendem a ver a morte como o fracasso da medicina – veja-se o aumento considerável da esperança média de vida humana possibilitado por este adiamento constante da morte, através da investigação de novos fármacos, equipamentos, etc. – no entanto, a forma como a justificaram ao seu hipotético doente pareceu- me incipiente e desprovida de fundamentação que tivesse em conta a vontade desta pessoa. Viver por viver não faz sentido, principalmente quando nos referimos a um Ser humano que tende a procurar e construir, ao longo da sua vida, um significado para tudo o que fez, faz e é.

Tem que haver um objectivo. É aqui que devem incidir as intervenções de reabilitação. A própria personagem refere: “Sempre que olho para ti, invejo aquilo que não posso fazer!”. Ora, esta frase revela um intenso sofrimento e a manutenção de objectivos de vida incompatíveis com a sua condição actual. Esta personagem mantém aspirações de vida que devem ser trabalhadas no sentido de construir um projecto de vida viável, realista.

Então, pergunto-me, o que deve fazer o enfermeiro nesta situação? Num dado momento do filme, a personagem refere “já não sou quem era.”. Pois este é um excelente ponto de partida. Claro que já não é a mesma pessoa, já não tem a mesma identidade. Quem somos, ou melhor, aquilo que consideramos que somos é mutável e depende do contexto da nossa vida. Tal como Watson (2002) defende, o Ser Humano é mente, corpo e espírito em interacção e, como os vértices de um triângulo, tende para a harmonia. Quer isto dizer que as alterações das capacidades físicas implicam uma reorganização do auto-conceito da pessoa.

O enfermeiro, baseando-se, por exemplo, nos dez factores do caring (WATSON, 2002), procura construir com a pessoa esta harmonia, esta identidade. É importante que a pessoa compreenda que mantém capacidades, quer estejam adormecidas ou imberbes, e que elas podem potenciar, SE foram trabalhadas, o desenvolvimento da pessoa humana. Que aqui considero como um processo de construção gradual de experiências vividas e analisadas e com significado no continuum da vida (RISPAIL, 2002; JOSSO, s.d.).

Com isto não quero formalizar uma opinião contra a eutanásia - mesmo porque tal não seria verdade – quero apenas que se compreenda que a eutanásia não é a única opção num momento como este. Até porque, infelizmente, o “Homem está condenado a ser livre”, já o disse Sartre[1], e, por isso, o respeito pela autonomia do cliente obriga o enfermeiro a aceitar a decisão da pessoa e a pessoa, a arcar com as consequências das suas decisões.

Regressando ao filme, é então, claro que a alteração do funcionamento desta pessoa não implica a perda da sua identidade, mas sim uma reconstrução. A tertraplégia irá obrigar à construção de um diferente projecto de vida. Afinal, tal como Honoré (2002) defende, o projecto de vida depende do projecto de saúde. Ou seja, a capacidade para o desenvolvimento humano depende do estado de saúde da pessoa, ou melhor, da sua percepção sobre o seu estado de saúde.

Mais uma vez, a construção do auto-conceito é um processo que pode ser desenvolvido pelo enfermeiro. Mobilizando a Teoria do Déficit do Auto-cuidado e a inerente Teoria dos Sistemas de Enfermagem de Orem (1980), encontramos, também, a justificação desta intervenção. Considerando que a autora (1980) postula que um dos requisitos para o auto-cuidado é a manutenção de uma auto-conceito realista, o enfermeiro através de um dos três sistemas de enfermagem – totalmente compensatório; parcialmente compensatório; ou apoio e educação – deve apoiar o cliente no desenvolvimento deste processo.

A estudante de enfermagem, no filme, tem um papel importante nesta intervenção: brinca com o cliente de igual para igual, vê nele uma pessoa tão válida como ela, com tanta dignidade quanto ela e, por isso, procura identificar os seus desejos, as suas aspirações e vontades e actua no sentido de as satisfazer porque também ela, partilha delas, como qualquer Ser Humano.

Em oposição a isto, a relação de paternalismo que os profissionais de saúde tendem a desenvolver em detrimento do livre arbítrio do cliente lesa a Dignidade Humana desta pessoa. Escondendo-se sob a máscara de um maior conhecimento científico, os profissionais tendem a esquecer-se que quem sabe mais sobre esta, ou aquela, doença é o doente porque é ele que a vive e que sofre na pele as suas consequências.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

FERREIRA, Vergílio – O existencialismo e o humanismo de Vergílio Ferreira. Lisboa: Bertrand Editora, 2004. ISBN 9789722513654

HESBEEN, Walter - Trabalho de fim de curso, trabalho de humanidade : emergir como o autor do seu próprio pensamento. Loures: Lusociência, 2006. ISBN 972-8930-31-3.

HONORÉ, Bernard – A saúde em Projecto. Loures : Lusociência, 2002. ISBN 972-8383-31-2.

HONORÉ, B. – Cuidar: Persistir em Conjunto na existência. Loures: Lusociência, 2004. ISBN 972-8383-58-4.

JOSSO, MC. – Procura de formação, projecto de formação, projecto profissional como desafios de uma formação criativa e experiencial a explicitar e a acompanhar. S.d..

OREM, Dorothea – Nursing: concepts of practice. 2ª Edição. Nova Iorque: McGraw-Hill book company, 1980. ISBN 0-07-047718-3.

RISPAIL, Dominique - Conhecer-se melhor para melhor cuidar : uma abordagem do desenvolvimento pessoal em cuidados de enfermagem. Loures : Lusociência, 2003. ISBN 972-8383-42-8

ROGERS, Carl – Tornar-se pessoa. 2ª edição Lisboa : Moraes Editores, 1973.

WATSON, Jean - Enfermagem : ciência humana e cuidar : uma teoria de enfermagem. Loures: Lusociência, 2002. ISBN 972-8383-33-9.


[1] Da análise de Vergílio Ferreira da obra de Sartre O existencialismo e o humanismo

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O APOIO AO PRESTADOR DE CUIDADOS – QUE ESTRATÉGIAS?

“A pouco e pouco, os seus receios foram-se dissipando; a consciência desse contacto íntimo, inesperado (...) mantinha-se no entanto”

Aldous Huxley, excerto de “A Ilha

Eu e a enfermeira fomos efectuar uma visita domiciliária a um utente do Programa de Cuidados Continuados e à sua esposa, sua principal prestadora de cuidados. O que motivou esta visita foi o tratamento de uma úlcera de pressão no calcanhar do marido mas, mais uma vez, foi um motivo insuficiente para a necessidade de cuidados de enfermagem de que ambos os cônjuges necessitavam.

Assim que nós entrámos na casa do casal, dirigimo-nos directamente ao quarto do esposo. Este estava no leito e, durante todo o tratamento, foram raras quaisquer verbalizações da sua parte. A esposa, no entanto, manteve um discurso fluído, falando do pouco tempo que tinha para “tratar de outros assuntos” (sic) – como o pagamento de contas, compras, etc. - e que só podia fazê-lo num breve período do início da manhã.

Terminámos o tratamento da ferida e fomos lavar as mãos, a esposa seguiu-nos até à casa-de-banho com uma toalha. Aproveitando o momento, perguntei o que o esposo iria comer e que precauções costumava ter com a sua alimentação, já que o seu marido tem diabetes e faz diálise três vezes por semana. Mostrou-me o peixe que ainda iria cozinhar, falou-me dos truques que utilizava para o fazer comer carne com a sopa, “é que, sabe, eu tenho que ter muitos cuidados com a comida dele” (sic). Daqui, voltou a referir o pouco tempo que tinha para si própria e o facto de também não se sentir bem “a minha tensão está muito alta e isto está a piorar” (sic), “eu ando muito cansada” (sic). Perguntei porquê, o que se passava, quais as razões para o seu mal-estar e há quanto tempo já durava. Respondeu-me que já se tinha reformado há dois anos e que há um ano que andava “nisto” (sic). “Nisto o quê?”, perguntei. Respondeu-me, então, que estava cansada de andar com o marido de um lado para o outro, de estar sempre a ser solicitada por ele, de não conseguir dormir, de ter que estar preocupada todo o tempo que passava fora de casa com o que estava a acontecer com ele em casa, “estou esgotada” (sic) concluiu e, algures no arrebatamento do seu discurso, começou a chorar. “Eu não sei se aguento muito mais” (sic) disse num tom de desânimo.

Deixei que a torrente de palavras terminasse e toquei-lhe. Perguntei-lhe se tinha outra ajuda para cuidar do marido, tendo respondido que que não; o filho estava longe e só vinha a casa de vez em quando e que já não havia vagas para o apoio domiciliário do centro paroquial. Perguntei-lhe como era organizado o seu dia e disse-me que acordava de manhã, que lhe dava o pequeno-almoço, depois que o ajudava a tomar banho e, só então, saía de casa se fosse necessário. Voltava a casa, preparava o almoço, dava o almoço ao marido, este fazia a sesta e a esposa aproveitava para descansar. Assim que acordavam, repetiam-se as tarefas para o jantar e voltavam a dormir.

Nestas situações, a minha principal preocupação é arranjar uma solução milagrosa que resolva rapidamente o problema, mas as mais estranhas experiências provaram que eu não tenho solução para tudo e que a cada pessoa corresponde um tempo e uma maneira de agir que devem ser sempre tidas em conta. Por isso, comecei por elogiar o trabalho que a esposa tinha realizado até então, realizando reforço positivo, e procurei demonstrar-lhe o bem-estar que já tinha proporcionado ao marido, tanto através dos pequenos pormenores na sua alimentação, como através do voluntário investimento de todo o seu tempo nesta prestação de cuidados. Tentei mostrar-lhe que cuidados como estes tinham benefícios para o seu marido e que o seu bem-estar poderia ser uma fonte de satisfação para ela.

Mas, também é verdade que a prestação de cuidados só tem sentido se o prestador cuidar não só da pessoa cuidada mas também, e talvez principalmente, de si próprio. Um prestador de cuidados que relega a sua identidade e o seu prazer para segundo plano, parece-me, estará mais próximo da frustração e da sobrecarga, pois terá como única fonte de retorno os progressos da pessoa de quem cuida. Esta atitude poderá fazer o prestador de cuidados esquecer-se do que é ser feliz e, pior, esquecer-se do que o faz ser feliz. Dependendo apenas do bem-estar do outro como fonte de prazer, quaisquer alterações negativas no seu estado geral serão vividas por ambos com intensidades semelhantes, o problema de um passará a ser dos dois, tal como as suas consequências.

Por tudo isto, foquei ainda a minha intervenção na atenuação de pelo menos uma das manifestações: a falta de sono e de descanso, que poderá ser uma das causas da hipertensão. Identificando o período da sesta como o menos ocupado pelas exigências do cuidado, incentivei-a a utilizá-lo como um período para si própria, quer pela sesta, quer pela procura de actividades que lhe dessem prazer, tendo a esposa nomeado actividades manuais como crochêt e tricôt.

Concluído isto, incentivei-a a procurar novamente ajuda formal para a prestação de cuidados de higiene e talvez alimentação, tal como a sentir-se à vontade para expressar estes sentimentos às enfermeiras que efectuassem a visita domiciliária. Expliquei-lhe que estávamos ali também para a ajudar a adaptar-se à situação do seu marido e ao seu papel de prestadora de cuidados. A esposa assentiu, mas insistiu em pedir desculpa por ter chorado e agradeceu o tempo da entrevista, referindo que “por vezes preciso de falar” (sic), disse. Reiterei que não deveria pedir desculpa por chorar, já que a sua situação é complicada e nem sempre podemos mostrar que estamos bem, quando, na verdade, não estamos.

A entrevista terminou aqui e, pouco depois, saímos da casa.

O problema de enfermagem que aqui quis descrever é a sobrecarga do familiar prestador de cuidados que, para Sousa, Figueiredo e Cerqueira (2006) é o conjunto de problemas físicos, económicos e psicológicos causados pela situação de cuidados. A prestadora de cuidados aqui referida já manifesta o esforço psicológico e físico acrescido na prestação de cuidados.

Nesta situação, a esposa já está a ultrapassar os seus limites da resistência emocional na prestação de cuidados ao marido. Apresenta perturbações do sono, ingerência nas actividades de lazer e verbalizou que já está esgotada, cansada. Além disso, não tem uma rede social grande nem eficaz, dependendo dela própria a satisfação da maior parte das exigências do cuidado ao marido.

São várias as intervenções que poderiam ser desenvolvidas perante este problema. Se pensarmos na dimensão funcional da prestação de cuidados e nas inerentes actividades para a satisfação de exigências de higiene, alimentação e eliminação, estamos a falar de uma necessidade de apoio formal no desenvolvimento das actividades. Este pode ser desenvolvido por instituições privadas de solidariedade social ou, talvez, pelos próprios enfermeiros de cuidados continuados, se a sua dotação fosse suficiente. Além disso, da equipa do Programa de Cuidados Continuados faz parte uma assistente social que é o profissional mais habilitado para o estabelecimento de pontes com os serviços sociais de apoio ao domicílio. Mais se acrescenta que a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados também prevê, nos seus internamentos de longa duração, situações de sobrecarga do prestador de cuidados, onde o internamento da pessoa cuidada terá como principal objectivo o alívio do prestador de cuidados.

Quanto ao apoio na vivência do papel de prestador de cuidados, outras intervenções poderiam ser desenvolvidas. Uma delas é a manutenção de entrevistas de apoio e suporte psicológico realizadas pelo enfermeiro do Programa de Cuidados Continuados com frequência, intervenção esta já desenvolvida pelas enfermeiras. Nestas entrevistas, o enfermeiro pode compreender a forma como o prestador de cuidados se está a adaptar à situação, identificar com ele os seus principais problemas e, também com ele, desenvolver um plano de cuidados que não integre apenas a parceria nos cuidados à pessoa que está acamada ou mais dependente, mas também os objectivos e as intervenções que fazem do prestador de cuidados um cliente igualmente importante dos cuidados de enfermagem. Afinal, o enfermeiro de cuidados domiciliários não tem apenas como clientes os utentes inscritos para o tratamento de feridas, administração de terapêutica ou outros procedimentos técnicos, são seus clientes todos os membros do agregado familiar e, no caso de prestadores de cuidados não familiares, os amigos e vizinhos que assumam esse papel.

Eu reitero que nunca nos podemos esquecer de que a prestação de cuidados é uma pareceria entre o próprio prestador e a pessoa cuidada: o prestador cuida COM a pessoa cuidada porque esta última também desempenha um papel – menor ou menor – no seu auto-cuidado e, da mesma forma, o prestador de cuidados tem que se ter na conta de um Ser Humano ao qual também correspondem necessidades que, se ignoradas, implicam uma degradação progressiva do seu bem-estar bio-psico-social.

Esta intervenção descrita é individual porque se desenvolve com apenas um prestador de cuidados de cada vez e também personalizada porque é única e os seus moldes são irrepetíveis. Mas questiono-me: não será possível desenvolver uma intervenção de acompanhamento de prestadores de cuidados em grupo?

Pensando nos benefícios de um grupo de apoio, com ele estaremos perante um momento partilha de experiências, identificação com o outro e comprensão de si próprio. Couceiro (1998) defende que a transmissão da vivência é essencial para a construção de uma experiência com significado. Ora, podendo partilhar as suas vivências – os melhores e piores momentos e até mesmo os pormenores do dia-a-dia – poderia ajudar os prestadores de cuidados a encontrarem um significado e, até mesmo, uma finalidade para o esforço que desenvolvem. Desenvolvida esta finalidade, seria mais fácil o empenho e a integração das actividades desenvolvidas num projecto de vida próprio.

A intervenção num grupo de apoio permite, ainda, a identificação com as experiências dos outros. Sentimentos negativos, geradores de culpa e pesar poderiam encontrar eco nas experiências de outros cuidadores. Sabendo que o outro, igual e mim em circunstância, vive da mesma forma esta situação, que o outro se sente tão incomodado como eu, o meu sentimento de culpa será atenuado, pois compreenderei que o meu ressentimento é o mesmo de outro. Então, porque é que ambos nos ressentimos? O que há de comum nas nossas histórias para suscitarem sentimentos semelhantes? Através de raciocínios como este, os prestadores de cuidados num grupo de apoio, poderiam analisar as suas experiências até ao cerne do seu significado e, assim, desconstruir mitos e sentimentos nocivos, tanto para o prestador de cuidados, como para a pessoa cuidada.

Outra das vantagens deste tipo de intervenção é trazida pela frequência das reuniões e por uma certa obrigatoriedade – claro que trabalhada e não exigida. Se os prestadores de cuidados se encontrarem em grupo, semanalmente, na presença do enfermeiro, este terá a oportunidade de avaliar situações de cuidados, mesmo quando o utente dependente já teve alta. Além disso, o enfermeiro pode desenvolver intervenções educativas no sentido de capacitar o prestador de cuidados para exercer ainda melhor o seu papel.

Esta intervenção exige um esforço acrescido dos enfermeiros; no entanto, os seus benefícios a longo prazo trazidos pela capacitação adequada dos prestadores de cuidados para exercerem o seu duplo papel de auto-cuidador e cuidador de outrém, poderiam torná-la uma intervenção vantajosa. Haverá uma incidência menor da sobrecarga do cuidador e de depressão, condições que impossibilitam o prestador de cuidados de desenvolver a sua actividade e, por isso, sobrecarregando as redes de apoio formal; e, inclusivamente, diminuir a incidência de problemas decorrentes da imobilidade, como úlceras de pressão, degenerações osteo-articulares, desnutrição, etc.

Voltando a pegar na situação acima descrita, a intervenção que desenvolvi está integrada no plano de cuidados do enfermeito responsável pela visita domiciliária desta família, limitei-me apenas a dar continuidade ao trabalho desenvolvido. No entanto, é de planear um contacto brevemente com o centro paroquial que a esposa referiu ou outra instituição privada de solidariedade social que venha diminuir a sobrecaraga física da cuidadora.

BILBIOGRAFIA

COUCEIRO, M. – Autoformação e transformação das práticas profissionais dos professores. In Revista de educação. Vol VII. Nº 2 1998

SOUSA, Liliana; FIGUEIREDO, Daniela; CERQUEIRA, Margarida – Envelhecer em Família: Os cuidados familiares na velhice. 2ªedição. Porto: ÂMBAR – Ideias no Papel, 2006. ISBN: 972-43-1152-X.

terça-feira, 8 de junho de 2010

O ACOMPANHAMENTO DOMICILIÁRIO – QUEM DEFINE A SUA PERTINÊNCIA?


“Os homens já se esqueceram desta verdade – disse a raposa – Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa”

Antoine de Saint-Exupèry, excerto de “O principezinho

Até agora, as minhas experiências enquanto estudante de enfermagem estão demasiado interligadas com o hospital. Lá, comecei a aprender o que é assistir o Ser Humano em situações de extrema vulnerabilidade súbitas. Foi no hospital que me deparei com os efeitos do acaso, do imprevisto e que tive de aprender a lidar com a família e o cliente que sofrem um processo de luto pela perda da vida vivida até então. Foi no hospital que dei, com a família, os primeiros passos na preparação para a transição do hospital para o domicílio, que tive que, também com a família e o seu elemento internado, antever as dificuldades que iriam experimentar para se adaptarem à nova situação de doença.

Foi nesta preparação que compreendi o quão inexperiente era para ajudar a família a regressar a casa. Eu podia conhecer as complicações que determinada doença crónica acarretava, sabia as dificuldades que determinado episódio agudo implicava, mas não conhecia o verdadeiro contexto da pessoa que vive em casa com uma doença que implica alteração do seu nível de dependência. Desconhecia o que significa realmente “cuidar em casa” – Que preocupações? Que necessidades? Que motivações? Que alterações na vida de toda a família?

Foi neste contexto e com estas peocupações em mente, que surgiu a minha necessidade de desenvolver um ensino clínico na comunidade e no verdadeiro contexto de vida das pessoas de quem cuido e cuidarei ao longo da minha vida. Só assim, acredito, poderei prestar cuidados de enfermagem realmente completos e abrangentes da vida singular de cada indivíduo e da dinâmica familiar a que pertence.

Um dos primeiros momentos de inquietante aprendizagem foi uma visita pré-alta dos Cuidados Continuados de Enfermagem, a uma cliente com cirurgia recente do hallux. Eu e a enfermeira entrámos na casa. Papel de parede antigo revestia as paredes numa viagem à primeira metade do século XX, complementada por móveis com aplicações e pinturas douradas. À porta, estava uma mulher septuagenária, com cabelo pintado de loiro e penteado armado. Estava sozinha e guiou-nos, claudicante, até ao seu quarto – uma divisão pequena, dominada pela cama de casal e iluminada por luz natural. Sentou-se na beira da cama e indicou-nos a cama e a cadeira à sua frente para nos sentarmos.

Realizei o tratamento da sutura operatória, já totalmente cicatrizada e coloquei o penso protector, seguindo as instruções da dona do pé que esteve sempre atenta aos movimentos. Durante todo este tempo, a senhora falou-nos do seu problema de osteoartrose, das varizes que há anos operou e que agora “voltaram a incomodar”(sic), fez-nos uma súmula da sua história de doenças. O seu discurso era pontuado por breves interrogações nossas e exclamações de dor quando o toque das minhas mãos atingia zonas sensíveis do seu pé.

Depois de lavarmos as mãos perguntei, fora tudo aquilo que nos tinha relatado, como se tinha sentido globalmente nos últimos dias. Uma simples pergunta – “Como tem passado?” repercutiu estrondosamente no comportamento da senhora. De uma atitude de serena conformação, passou para o choro e tristeza pungentes. Entre lágrimas disse que estes dias não tinham sido fáceis, não por causa do pé, não por causa do forçado repouso, nem por causa da dor. Por nenhuma das razões que à partida nos tinham levado à sua casa; mas porque a visita do Papa tinha tornado mais fortes as lembranças da irmã falecida há três anos.

Falou-nos da sua relação com a irmã, do apoio que tinham sido uma para a outra, das histórias em conjunto. Sentia muito a sua falta. A partir daí, falou-nos da sua filha que faleceu aos 3 anos de idade, dos seus 40 anos de viuvez e de como nunca se tinha sentido tão sozinha como a partir da morte da sua irmã.

Durante o relato pouco interviemos, só quando a intensidade do discurso amainou é que dirigimos a entrevista até ao momento presente. Como era a sua vida agora? Quem a apoiava? Quem a visitava? O que gostava de fazer? Com estas perguntas tentámos procurar no “agora” o que de bom existia na sua vida. Então, falou-nos da vizinha que muito a apoiava – “Todos os dias vem cá”(sic) – falou-nos de outras vizinhas com quem também podia contar e, a pouco e pouco, os seus olhos secaram. O seu discurso tornou-se pragmático e explicou-nos em que consistiam os apoios que recebia, o que ainda fazia por si própria e o que esperva voltar a fazer assim que o pé melhorasse.

Terminámos a entrevista pouco depois mas, ainda antes de nos despedirmos, pediu desculpa por ter chorado, não o queria ter feito, mas as lembranças eram demasiado fortes. Dissemos que não eram necessárias quaisquer desculpas pois ninguém deve pedir perdão por algo que lhe é tão natural e necessário. Pediu-nos que regressássemos mais tarde, disse-nos que seríamos sempre benvindas, embora a data de regresso permanecesse indefenida.

Esta situação trouxe-me algumas inquietações. Uma delas tem que ver com o motivo da visita domiciliária (VD) e as reais intervenções de enfermagem. No Programa de Cuidados Continuados do Centro de Saúde da Alameda, a primeira VD implica, na maioria das vezes, uma prescrição médica inicial quer seja para tratamento de feridas ou administração de injectáveis. Já as visitas de vigilância e acompanhamento, não, são planeadas pelo enfermeiro.

Ora, na primeira visita, o enfermeiro nunca se limitará a desenvolver as intervenções prescitas pelo médico – ou interdependentes. Levará a cabo, também, intervenções autónomas como a avaliação da situação de saúde do cliente, do seu contexto social, do impacto da situação na família e do impacto da situação no próprio cliente (RICE, 2004). Aliás, o próprio tratamento duma ferida implica muito mais do que a escolha de alguns apósitos, implica uma definição de objectivos com o cliente e implica um trabalho de parceria baseado no compromisso mútuo. Então, pergunto-me: Será sempre necessária a prescrição médica? O enfermeiro não poderá decidir se inicia, ou não, o acompanhamento domiciliário?

Por tudo o que aqui se decreve, a resposta óbvia é sim, o enfermeiro pode e deve tomar essa decisão, mas não é tão linear como parece. Por um lado, sendo o enfermeiro um profissional autónomo, com quadro referencial próprio e preparado para o processo de tomada de decisão, tem toda a competência para decidir o desenvolvimento, ou não, de acompanhamento domiciliário, baseado nas necessidades de enfermagem. Afinal, as intervenções de enfermagem no domicílio do cliente excedem, em muito, as prescrições do médico. Isto significa que os motivos da VD devem englobar todas as necessidades humanas, tal como as vê a diciplina de Enfermagem. Relegar a decisão sobre o início do acompanhamento, ou não, por enfermeiros, ao médico, é segmentar a pessoa e reduzi-la à sua existência biológica.

Já no que diz respeito ao término do acompanhamento domiciliário, a situação inverte-se. O enfermeiro decide até onde se devem efectuar VD’s; e esta é uma das grandes diferenças entre os cuidados continuados e o hospital. No hospital, o fim do internamento tende a depender da alta clínica e, em alguns casos, da alta social. Raramente o enfermeiro tem a última palavra, principalmente se os profissionais de saúde só funcionarem em equipa pelo nome. No entanto, nos cuidados continuados, é o enfermeiro que decide até onde deve ir o tratamento. É o enfermeiro quem conhece melhor a situação do cliente e as suas respostas, estando mais habilitado para decidir quando deve cessar o acompanhamento.

Voltando à pergunta - Será sempre necessária a prescrição médica? – e à situação descrita, existe ainda uma necessidade de cuidados de enfermagem, apesar da alta. Pela NANDA, o diagnóstico de enfermagem “Risco de Solidão” implica algumas das características aqui relatadas: diminuição da rede social informal e aumento do nível de dependência (CARPENITO-MOYET, 2005). Remetendo-nos este diagnóstico para o necessário desenvolvimento da relação enfermeiro-cliente, podemos reportar-nos a Hildegard Peplau e às 4 fases que a teórica descreveu para esta relação: orientação, identificação, exploração e resolução (MARRINER-TOMEY e ALLIGOOD, 2004). Estas fases, idependentemente da duração da relação devem existir de forma mais, ou menos, pronunciada. A fase correspondente à situação descrita é a de resolução que, para Marriner-Tomey e Alligood (2004), implica a construção de objcetivos novos, diferentes daqueles definidos perante a situação de doença, e a separação do enfermeiro e do cliente. Por isso, é importante que, quando o acompanhamento domiciliário começa a chegar ao fim, se comecem a estabelecer metas além da situação de doença e que se integrem num projecto de vida em desenvolvimento, que deve ultrapassar o momento actual de necessidades.

No exemplo descrito foi importante trabalhar com a cliente os factores que promovem o seu bem-estar e que existem “agora”.

Para Marriner-Tomey e Aligood (2004), Peplau também defende que o enfermeiro tem, entre outros papéis, o de conselheiro que ajuda o cliente a compreender a sua situação actual de doença, ajudando-o a integrá-la na sua história de vida, tal como a percebe. Este papel, num tempo de interacção tão curto como o aqui descrito (para este problema actual, nós – enfermeira e eu – só visitámos a senhora uma vez. Nos dias anteriores, a VD foi realizada por outras enfermeiras), não está necessariamente comprometido. Dele irradiam intervenções como as realizadas: preparação para o regresso à vida quotidiana, anterior à cirurgia; reforço dos recursos (as vizinhas); e planeamento de formas de satisfação das necessidades humanas fundamentais.

Justificada a pertinência da decisão autónoma do enfermeiro sobre a realização, ou não, de acompanhamento domiciliário, é importante compreender que esta decisão nem sempre depende da existência de necessidades humanas básicas por satisfazer. Afinal, a teoria será cega se não adaptada à prática e o Programa de Cuidados Continuados deste Centro de Saúde tem uma dotação de enfermeiros muito inferior à ideal. Querendo isto dizer que, intervenções como as aqui descritas podem, sim, ser realizadas, mas em tempo útil da VD para tratamento, vigilância ou administração de terapêutica, tornando-se supérfluas quando entram em competição com necessidades ainda mais fundamentais de outros clientes do Programa. No entanto, no quadro de valores e documentos orientadores da prática de enfermagem – como o é o Guia das Competências do Enfermeiro de Cuidados Gerais – estas necessidades e intervenções não são supérfluas, tornando-se necessária a re-avaliação dos actuais recursos do Programa de Cuidados Continuados. Só assim se poderão prestar cuidados de enfermagem de qualidade – como já o são – mas completos – como só o aumento do tempo de VD pode permitir.

Eu sei que do Programa de Cuidados Continuados deste Centro de Saúde faz parte uma equipa de profissionais de saúde – médicos, enfermeiros, assistente social e psicóloga. No entanto, a conclusão a que quero chegar é que o acompanhamento domiciliário implica um conjunto de competências que o enfermeiro domina e que excedem em muito as prescrições médicas, logo, a determinação da necessidade de acompanhamento, quer seja o seu início ou o seu prolongamento, também deverá ser dependente do parecer do enfermeiro. Sendo que, necessidades que não implicam inervenções instrumentais, mas que fazem parte dos focos de atenção do Enfermeiro devem, também elas constituir motivos para o início da visita domiciliária. Um exemplo prático seria o acompanhamento desta senhora, mesmo após a cicatrização da sutura, tendo em vista a realização de entrevistas de apoio e suporte psicológico não só para aumentar o nível de independência da cliente, mas também para desenvolver estratégias de coping face à situação de luto que a cliente ainda vive.

BILBIOGRAFIA

CARPENITO-MOYET, Lynda H. - Diagnósticos de enfermagem : aplicação à prática clínica. 10ª ed. Porto Alegre: Artmed Editora. 2005. ISBN: 85-363-0187-2.

MARRINER-TOMEY, Ann; ALLIGGOD, Martha R. - Teóricas de enfermagem e a sua obra : modelos e teorias de enfermagem. 5ª ed. Loures: Lusociência. 2004. ISBN: 972-8383-74-6.

RICE, Robyn - Prática de enfermagem nos cuidados domiciliários : conceitos e aplicação. 3ª ed. Loures: Lusociência. 2004. ISBN: 972-8383-46-0.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Vamos re-pensar os valores da nossa luta?

Há umas semanas recebi este desconcertante e-mail sobre a opinião de um jornalista sobre a última greve de enfermeiros.


«A lata dos enfermeiros, segunda parte

Os enfermeiros marcaram umas férias, perdão, uma greve de quatro dias. Porquê? Não se percebe. Mas fica a ideia de que querem ganhar mais do que os médicos.

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
9:00 | Terça-feira, 30 de Março de 2010

I. A lata dos enfermeiros continua . Para começar, uma greve séria não tem quatro dias. Uma greve séria não é marcada para os quatro dias imediatamente anteriores ao feriado da Páscoa. Assim, até parece que os senhores enfermeiros marcaram umas férias antecipadas. Caro enfermeiro, se não quer ser confundido com o lobo, não lhe vista a pele.
II. Fazer reivindicações sem sentido é o desporto do nosso sindicalismo. Os enfermeiros não são excepção. Agora, Suas Excelências querem ganhar 1200 euros logo no início de carreira. Não se percebe porquê. Em primeiro lugar, um licenciado na função pública não pode ganhar 1200 logo à partida (se ganhar, o país enlouqueceu mesmo). Em segundo lugar, se ganhar 1200 euros, um enfermeiro fica a ganhar quase tanto como um médico em início de carreira. E, lamento, isso não faz sentido.
III. A diferença entre os 1500 euros do jovem médico e os 1000 euros do jovem enfermeiro é a diferença justa. Aliás, parece-me que já beneficia, e muito, o enfermeiro. Porque a responsabilidade do médico é, obviamente, superior à do enfermeiro. Dentro do hospital, o médico é superior ao enfermeiro.Lamento, mas as coisas são assim, por mais lógicas corporativas que os enfermeiros invoquem. O corporativismo sindical não pode abolir as óbvias diferenças técnicas e de responsabilidade que existem dentro de um hospital.
IV. Quando se fala com os enfermeiros, parece existir sempre uma espécie de ressentimento "classista" contra os médicos. É como se os enfermeiros estivessem a gritar contra os médicos: "olhem, olhem, nós agora também somos licenciados, e sabemos tanto como vocês". Será por isso que os enfermeiros não fazem o trabalho "sujo" nos hospitais? Será por isso que tem de haver aquele batalhão de auxiliares para as tarefas sujas e simples? O dr. enfermeiro já é demasiado fino para limpar o rabo aos velhinhos? É isso?"»


Não sei se fico mais ofendida com o jornalista e com o expresso por terem publicado esta ofensa pública e em massa, ou se fico triste com o trabalho que temos desenvolvido - enquanto classe de profissionais de saúde - até agora na construção de uma opinião pública consistente e de acordo com a verdadeira intervenção dos profissionais de enfermagem.

Senti que esta declaração não poderia ter ficado sem resposta, por isso, enviei a seguinte resposta para o correio do expresso, não tendo obtido qualquer contra-resposta, pelo menos até ao momento:


"Caro Senhor Jornalista,
Antes de mais, permita-me que me apresente. O meu nome é Luiza Benatti e estou a terminar o 4º e último ano da Licenciatura em Enfermagem na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa. É por isto que farei parte do contingente de beneficiados (ou prejudicados) das actuais negociações entre o SEP e o Ministério da Saúde. Esta é uma das razões que me levaram a insurgir-me contra tão tola publicação num dos mais importantes jornais do país. Observemos o seu "artigo" de opinião em detalhe:
I. A greve de quatro dias marcada na véspera da Páscoa em nada tem que ver com uma extensão do tempo de férias. Até como calculo que saiba, os enfermeiros, principalmente colaboradores de um hospital, não têm uma semana como a maioria dos profissionais portugueses, trabalham por turnos em regime de Rolman, ora isto significa que, independentemente da data da greve, os dias que a antecedem e que a seguem serão dias de trabalho como quaisquer outros.
II e III. Como ousa comparar os ordenados de duas classes profissionais tão diferentes? Como ousa comparar os ordenados de colegas de equipa? Algures no seu artigo, afirma que não faz sentido que "um enfermeiro ganhe quase tanto como o médico", expressão engraçada esta... Sentido? Como o senhor deve, com certeza, saber, quando um enfermeiro termina a licenciatura tem uma carga horária de prestação de cuidados (em estágios) em muito superior à do "jovem medico" que inicia o internato (já a ganhar os 1200euros...). Por isto, está muito mlehor preparado para exercer as suas funções que o "jovem médico" - em quase todas as profissões, quem tem mais experiência ganha mais. Mas também não é por isto que a porca torce o rabo.
Eu acredito que ninguém deve ser premiado por realizar aquilo que é seu dever - fazê-lo é acreditar que o insuficiente é aceitável. Pois bem, cada macaco no seu galho, o que quer dizer que cada profissional desenvolve as intervenções necessárias para que sejam cumpridas as responsabilidades que lhe são atribuídas. Isto quer dizer que não se discute os peso das responsabilidades (tarefa inglória...), mas sim a qualidade do desempenho de um profissional e o seu papel dentro de uma equipa de cuidados de saúde que é composta pelo médico, pelo enfermeiro, pelo psicólogo, pelo assistente social, pelo fisioterapeuta... - o senhor que mesmo entrar na discussão de quem é mais importante que quem?
Depois, o senhor alguma vez foi internado? Se não foi, um dia compreenderá que não será com o médico que vai contar as 24h de um dia de internamento. Será o enfermeiro que passará mais tempo consigo, com a sua família. Será o enfermeiro que alertará o médico caso haja complicações e será o enfermeiro que lhe administrará toda a terapêutica. Por isto, meu senhor, não venha afirmar que a grandes responsabilidades devem corresponder grandes vencimentos, porque eu lhe pergunto de volta: Qual é a responsabilidade de um jogador da equipa de futebol principal do Benfica para receber o que eu, o senhor e mais uns vinte enfermeiros ganham em conjunto?
IV. E porque tal conclusão não poderia ficar sem reposta, nós não queremos ganhar tanto como os médicos, porque sabemos tanto como eles, o que queremos é uma oportunidade justa de manter a nossa dignidade enquanto profissão. O que queremos é que nos seja reconhecida a validade dos nossos conhecimentos - que dizem respeito à disciplina de Enfermagem.
Por último, errado está o enfermeiro que delega as "tarefas sujas" (não foi o que disse?!) aos assistentes operacionais, e a classe não deve ser representada por essas excepções. Intervenções como a prestação de cuidados de higiene no leito e a mudança da fralda de um adulto dizem respeito a momentos de extrema vulnerabilidade da vida humana. É nesses momentos que o Ser Humano necessita de mais consideração e atenção e, meu senhor, os profissionais da relação, peritos no acompanhamento emocional deste tipo de situações, somos nós. Na verdade, poucos são os profissionais que acedem ao privilégio de acompanhar os últimos momentos da vida de um ser humano, e nós fazemo-lo por dever, formação e responsabilidade.
Agradeço a sua atenção e espero que em nenhum momento desta missiva eu tenha sido ofensiva, se se sentiu lesado não era a minha intenção. Com esta resposta, queria apenas fazer-lhe chegar, por palavras, a minha indignação e ajudá-lo a compreender aquilo que nós, enfermeiros, por vezes temos dificuldade em mostrar às pessoas que não têm contacto connosco em contexto de saúde e doença.
O meu e-mail é benatti_luiza@hotmail.com e estou disponível para qualquer troca de ideias.
Muito obrigada pelo seu tempo
Os melhores cumprimentos
Luiza Benatti"

É importante que nos preocupemos mais em desconstruir esta imagem da "enfermeira ajudante do médico", do que em subir de estatuto. Se pensarmos bem, uma casa não se constrói pelo telhado e se o enfermeiro não conseguir provar a todos os portugueses - que tenham experimentado ou não os cuidados de saúde - a sua importância, não conseguirá nenhum aliado na conquista de outros direitos.